BRYM, Robert J. e Outros. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São
Paulo: Thomson Learning. Cap. 8 p.
280/201.
8.1: Política Social:
O que você Acha? Aborto — Uma Questão de Saúde Pública ou um Caso de Polícia?
O aborto representa um dos temas mais
polêmicos
no que se refere aos direitos reprodutivos. Estima-se que a cada ano ocorram
de 750
mil a l milhão de abortos clandestinos no Brasil. Sua prática é
considerada crime, exceto nas situações de risco de vida da gestante e gravidez
resultante de estupro (art. 128 do Código Penal). Em média, anualmente, 250 mil
mulheres são internadas no Sistema Único de Saúde (SUS) vítimas de abortos
inseguros. Dessas,
10% morrem e 20% ficam com seqüelas. O aborto inseguro é praticado principalmente
por mulheres
negras e pobres, que não podem pagar uma clínica particular clandestina.
Recentemente, o Ministério da Saúde regulamentou e implementou normas técnicas que
garantem à mulher o aborto nos hospitais da rede pública para os casos previstos em lei.
Iniciativas como
essa e como a campanha promovida pelo movimento de mulheres, que
procura garantir
a interrupção da gravidez nos casos de má-formação fetal incompatível com a
vida (tal como a anencefalia), têm provocado fortes embates no Congresso Nacional e, em
menor escala, no Supremo Tribunal Federal. Veja, a seguir, os principais argumentos defendidos
pelos dois lados do debate.
O movimento feminista
e de mulheres argumenta que, apesar de a Constituição atribuir ao Estado o dever de assegurar os
recursos educacionais e científicos para o exercício do direito ao planejamento familiar (art.
226), o que se verifica na prática é que as mulheres que decidem não ter filhos
encontram
dificuldades de acesso à informação e a métodos contraceptivos, cuja oferta nos
serviços públicos fica muito aquém da demanda. A ausência de uma política pública
eficiente para o planejamento familiar é considerada, pelo movimento de
mulheres, a grande responsável pelo alto número de gravidez in-desejada que
freqüentemente resulta em
aborto. A prática é comum no Brasil e em quase todo o mundo. A diferença é
que, em muitos países, o aborto está legalizado e as mulheres têm atendimento público e seguro para a
interrupção da gravidez. No Brasil, exceto nas situações de risco de vida da gestante e gravidez
resultante de estupro, a prática do aborto é criminalizada, o que obriga as
brasileiras a recorrerem a serviços clandestinos, responsáveis por inúmeras seqüelas ou
morte das mulheres. Na prática, portanto, a descriminalização do aborto representaria a garantia
de um atendimento de saúde de qualidade para aquelas que optam por fazê-lo. Nessa perspectiva, o aborto é concebido como uma
questão
de saúde pública e de cumprimento dos direitos das mulheres. "A mulher tem
condições éticas e morais de decidir sobre seu próprio corpo e de controlar sua
capacidade reprodutiva", argumentam as integrantes da ONG feminista
Católicas pelo Direito de Decidir: "sem essa liberdade de escolha, não é
possível
a justiça social".
Entre os setores sociais organizados
contra o aborto,
que lutam tenazmente contra sua legalização e pela eliminação de sua autorização nos
casos previstos na legislação, destaca-se a Igreja Católica, representada oficialmente no
Brasil pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). No documento Valores Básicos da Vida
e da Família, a CNBB faz um apelo às autoridades, aos médicos e aos enfermeiros, aos responsáveis pelos
meios de comunicação de massa e "a todos os católicos e homens de boa
vontade" no sentido de promoverem ações que restaurem a dignidade humana
"frente à escalada da permissivi-dade moral, ao planejamento familiar mal
orientado e
à lastimável campanha para a legalização do aborto". Para a CNBB, entre os
principais problemas da sociedade contemporânea estão a permissividade e a injustiça social. A
permissividade é caracterizada, entre outros aspectos, pela busca desenfreada
do prazer sexual,
que coloca de lado os valores fundamentais da família. A injustiça social leva
ao controle da natalidade, percebido como inadequado aos princípios cristãos. Desse modo,
critica-se o planejamento familiar seja também por estar fundamentado na busca de prazer e comodismo,
seja por imposição econômica decorrente de uma sociedade injusta. A partir desse ponto de vista, o
aborto é condenado não apenas por constituir uma forma de planejamento
familiar, mas
também porque é considerado uma das formas mais cruéis de violência contra a
vida humana, "um crime que brada aos céus". Argumentando contra o direito exclusivo da
mulher sobre seu corpo e chamando atenção para a situação alarmante dos abortos
clandestinos, a CNBB proclama "a inviolabilidade da vida, desde o
primeiro instante da concepção no seio materno. O direito à vida é o direito
fundamental do nascituro". Por fim, o documento da CNBB lembra que "a lei
humana não pode permitir o que a Lei de Deus proíbe: 'não matarás'". Os
argumentos em defesa da vida desde o primeiro momento da concepção são adotados
não apenas pelos cristãos de diferentes denominações, encontrando amplo alcance na sociedade.
E você, como se
posiciona diante desse debate? Você concorda com o argumento segundo o qual as mulheres têm
o direito de decidir sobre seu próprio corpo e controlar sua capacidade
reprodutiva?
A vida do nascituro está acima de tudo? O aborto é uma questão de saúde pública ou um "caso de polícia"? Qual é
o papel do Estado na regulamentação dessa questão? Como enfrentar um tema
tão polêmico
e que tem afetado diretamente milhares de mulheres no Brasil e no mundo?
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