BRYM, Robert J. e Outros. Sociologia: sua bússola para um
novo mundo. São Paulo: Thomson Learning. Cap. 3 p. 89.
3.1: Política
Social: O que Você Acha? Mutilação Genital Feminina: Relativismo Cultural ou Etnocentrismo?
A Organização Mundial
da Saúde (OMS) define mutilação genital feminina como "todos os
procedimentos envolvendo a remoção total ou parcial da genitália externa feminina,
ou outros ferimentos aos órgãos genitais femininos, por razões culturais ou outras razões
não-terapêuticas" (World Health
Organization, 2001). Tais procedimentos são geralmente realizados por
mulheres idosas e sem treinamento médico.
A mutilação genital
feminina resulta em dor, humilhação, trauma psicológico e perda do prazer sexual. Em curto
prazo, está associada a infecções, choque, danos a órgãos vizinhos e sangramento
intenso. Efeitos a longo prazo incluem infertilidade, infecções crônicas
nos aparelhos urinário e reprodutivo e maior suscetibilidade a doenças como hepatite B e HIV/Aids.
Embora freqüentemente
associada ao Islã (o conjunto dos países muçulmanos), a mutilação genital feminina é rara
em muitos países de maioria muçulmana. Trata-se de um costume social, não de uma prática
religiosa. É quase universal na Somália, no Djibuti e no Egito, e comum em
outras partes da África. Mais de 132 milhões de meninas e mulheres no mundo
inteiro submeteram-se à mutilação genital feminina. A cada ano, cerca de dois milhões de
meninas encontram-se sob risco de submeter-se a ela (Ahmad, 2000; World Health Organization, 2001).
A mutilação genital
feminina é geralmente desempenhada como um rito de passagem em meninas entre as idades de 4 e
14 anos. Em algumas culturas, as pessoas acreditam que ela aumenta a fertilidade feminina. Além disso,
presumem que as mulheres são naturalmente "sujas" e
"masculinas" quando possuem um vestígio do órgão sexual
"masculino", o cli-tóris.
A partir desse ponto de vista, as mulheres que não se submeteram à mutilação genital tendem a demonstrar níveis de interesse e atividade sexuais
"masculinos". Elas seriam
menos propensas a permanecer virgens
antes do casamento e fiéis após ele. Sendo assim, algumas pessoas acreditam que a mutilação genital feminina diminui ou erradica a excitação
sexual nas mulheres.
Uma reação possível à mutilação genital feminina é a "perspectiva dos direitos
humanos". De acordo com essa
perspectiva, a prática é apenas uma manifestação
da opressão de gênero e da violência que
as mulheres experimentam nas sociedades do mundo inteiro. As Nações
Unidas, que adotaram tal perspectiva,
definem a mutilação genital feminina
como uma forma de violência contra as
mulheres. A
perspectiva dos direitos humanos também tem se refletido em um número crescente de acordos internacionais, regionais e nacionais para que os
governos previnam as mutilações, forneçam assistência a mulheres que se encontram sob o risco de serem submetidas e estabeleçam punições para as pessoas
que operem a mutilação genital
feminina. Nos Estados Unidos, por exemplo, a punição para quem realiza a
mutilação genital feminina pode chegar a
cinco anos de prisão.^A lei enfatiza que "a crença (...) de que a operação é necessária como uma questão de costume ou de ritual" é irrelevante para a
determinação da sua ilegalidade (U.S.
Code, 1998).
Uma outra perspectiva
em relação à mutilação genital feminina é aquela defendida pelos relativistas culturais. Eles
argumentam que a perspectiva dos direitos humanos 'é etnocêntrica. Os
relativistas culturais percebem as intervenções que interferem nessa prática como pouco
mais que ataques neo-imperialis-tas às culturas africanas. De acordo com a perspectiva defendida por eles,
qualquer discurso sobre "direitos humanos universais" nega a soberania
cultural de povos menos poderosos. Além disso, a oposição à mutilação genital
feminina compromete a tolerância e o multiculturalismo e promove atitudes racistas. Sendo assim, os relativistas culturais argumentam
que deveríamos defender o direito de outras culturas de praticar a
mutilação genital feminina, mesmo que a percebamos como destrutiva, sem
sentido, opressiva e repugnante. Deveríamos
respeitar o fato de que outras culturas percebem a mutilação genital
feminina como significativa e
funcionalmente útil.
Qual dessas
perspectivas você acha mais defensável? Você acredita que certos princípios de
decência
humana transcendem os contextos particulares de qualquer cultura específica? Se sim,
quais são esses princípios? Se você não acredita na existência de qualquer princípio universal de decência
humana, então qualquer coisa é aceitável?
Você concordaria, por exemplo, que o genocídio é aceitável no caso de a maioria das pessoas de uma sociedade defendê-lo?
Ou existem limites para nosso
relativismo cultural? Em um mundo no qual princípios supostamente universais entram em choque com princípios de
culturas particulares, onde você delimitaria as fronteiras?
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