BRYM, Robert J. e
Outros. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thomson
Learning. Cap. 13 p. 445.
Política Social: O que você Acha?
O Estado e
os Meios de Comunicação de Massa: Censura ou
Regulamentação?
Em agosto de 2004, veio à tona na grande imprensa brasileira a
discussão sobre o projeto, de criação da Ancinav — Agência Nacional do Cinema e do
Audiovisual — proposto pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva. O projeto continha pontos que
contrariavam diretamente os interesses financeiros de veículos de comunicação e
agências de publicidade, como a proposta de criação de uma taxa de 4% sobre o
faturamento publicitário para financiamento do cinema nacional. Outros
atingiam em
cheio o bolso das grandes distribuidoras de filmes no mercado brasileiro, como aquele
que sugeria a criação de uma taxa sobre o número de cópias dos filmes exibidos.
Ambos os pontos tinham o objetivo declarado de estimular a diversificação da
produção audiovisual
consumida no Brasil, seja por meio de incentivo direto ao cinema nacional, seja
por meio do
aumento de custos para a presença maciça de filmes nas salas de exibição do Brasil.
O projeto foi
massacrado na cobertura "jornalística" dos grandes veículos de
comunicação, especialmente a das redes de televisão aberta. A estratégia deu certo — o
projeto foi engavetado ainda no ano de 2004. Mas a discussão em torno da proposta de criação da
Ancinav revelou as diferentes posições políticas quanto à relação entre o
Estado e os veículos de comunicação no Brasil. De um lado, esses veículos costumam
etiquetar de "censura" qualquer tentativa de regulação de seus
negócios, e para isso recorrem ao aval de figuras respeitadas no campo cinematográfico,
como Caca Diegues e Arnaldo Jabor. De outro lado, o próprio ministro da Cultura do governo Lula,
Gilberto Gil, parecia representar, pelo menos nesse quesito, as reivindicações
de setores
mais à esquerda da sociedade brasileira, que há muito pleiteavam a criação de mecanismos
de regulação
estatal dos veículos de comunicação, de maneira a promover a produção audiovisual
independente (aquela que não é financiada, produzida ou veiculada pelos
grandes grupos do setor).
A posição liberal
defendida pelos veículos de comunicação de massa e seus porta-vozes sustenta que uma proposta como
aquela ameaça a liberdade de expressão porque "submete a obra visual a
diferentes
valores éticos e sociais que ficam a cargo do governo definir e julgar",
como disse Caca Diegues em depoimento ao jornal O Globo (citado em Souza, 2004). O fio condutor
desse discurso é a identificação de qualquer tentativa de regulação
estatal à censura. Trata-se de uma forma de aproveitar toda a conotação negativa que o
termo carrega em um país que viveu uma ditadura há pouco mais de 20 anos. Veja-se, por exemplo, a
seguinte fala de Antônio Telles, então vice-presidente da Rede Bandeirantes:
"O governo tenta impor
uma estrutura reguladora muito firme, com
um texto que fala em interferências no
conteúdo das tevês que são inadmissíveis. Não podemos mais aceitar tentativas de censura" (citado em Souza, 2004). Ele se refere aos artigos que
determinavam uma proporção mínima de
programação nacional e regional na
grade dos veículos. O caráter liberal dessa posição consiste na crença inabalável
na capacidade de o mercado, por si só, garantir a diversidade desejada pelo consumidor, o que leva a entender como "dirigismo"
qualquer tentativa de regulação do
setor pelo Estado. A justificativa última
dessa posição estaria na suposta "liberdade de escolha" do consumidor, que pode, em princípio, acatar ou rejeitar os produtos audiovisuais
oferecidos e assim estimular a
produção daqueles que lhe agradam.
Diante disso, a regulação dos veículos de comunicação pelo Estado
representaria pura e simplesmente uma
censura à liberdade de expressão, não dos próprios veículos, mas dos consumidores
que eles supostamente representam.
O que não está
colocado nesse discurso é que o alarido pela regulação estatal dos meios de
comunicação
de massa parece partir justamente de setores que lutaram pela democratização —
ou seja, aqueles
que mais sentiram o peso da repressão. Senão vejamos: a proposta de criação da Ancinav
é francamente
baseada na Ancine — Agência Nacional de Cinema —, criada por sugestão dos
participantes do III Congresso de Cinema realizado em 2000. Muitos cineastas
pretendiam, naquele momento, estimular uma política cultural capaz de ampliar e diversificar
o cinema nacional, entendido como um meio de expressão das questões nacionais e de estímulo
para sua superação. Na mesma direção, Toni Venturi, cineasta paulista, afirmava
em depoimento à Carta Capital (2004) que a Ancinav era uma
"oportunidade histórica de o Estado retomar suas responsabilidades como regulador do mercado". A
idéia básica defendida é a de que, deixado a seu livre curso, o mercado produz
distorções
que cabe ao Estado minimizar, regulando o negócio de maneira a produzir resultado
socialmente
satisfatório. No caso, essa regulação teria por objetivo minimizar o
imperialismo cultural no campo do cinema e permitir maior diversidade nos
conteúdos
das televisões abertas.
A regulação dos meios de comunicação
pelo Estado,
para a revista Veja (2004), é apenas a revelação do
"autoritarismo" do Partido dos Trabalhadores (PT). Para muitos
membros do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, é um instrumento necessário para
assegurar que o audiovisual e o jornalismo não sejam reduzidos a um negócio como
outro qualquer, sem que se considere sua relevância cultural e política. Afinal de
contas, a grande censura sobre os conteúdos da mídia não parte mais do Estado, mas
dos próprios veículos. Trata-se de uma censura econômica que
seleciona o que vai ser veiculado em função dos interesses dos grupos que controlam os
meios de comunicação, cua propriedade altamente concentrada pode ameaçar os princípios
democráticos da pluralidade de v: ia, e da diversidade de opiniões.
E você, o que pensa a respeito da
regulação dos
meios de comunicação por parte do Estado? Você considera que o mercado produz
distorções indesejáveis como o imperialismo cultural? Caberia ao Estado agir para
permitir maior diversidade nos conteúdos da mídia? Ou, ao contrário, você acredita no poder de decisão e
na livre escolha do consumidor como o mecanismo mais adequado para lidar com as relações de
poder entre grande capita, mídia e consumidor?
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