BRYM, Robert J. e Outros. Sociologia: sua bússola para um
novo mundo. São Paulo: Thomson Learning. Cap. 7 p. 241.
Política Social:
O que Você Acha? Cotas Raciais nas Universidades
Brasileiras: Promoção de Justiça ou Racismo às Avessas?
Entre os dias 31 de agosto e 8 de
setembro de 2001, realizou-se na cidade de Durban, África do Sul, a III Conferência
Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de
Intolerância. O Estado brasileiro apresentou um conjunto de compromissos para a eliminação do
racismo em suas diversas formas: preconceito, discriminação e desigualdade raciais.
Dentre esses compromissos está a adoção de políticas de ações afirmativas. Ainda que
essas políticas não se resumam ao sistema de cotas para homens e mulheres
negros nas universidades públicas, assim como em outras partes do mundo, esse sistema
gera grandes
controvérsias na opinião pública, mesmo entre aqueles que simpatizam com o Movimento Negro. O sistema de
cotas no Brasil consiste na reserva de um conjunto de vagas em cursos universitários para homens e
mulheres negros que concorrem no vestibular. Apresentamos a seguir alguns dos
argumentos
utilizados pelos que defendem e pelos que condenam o sistema de cotas como medida
legítima ou mesmo eficiente de eliminação do racismo1. Comecemos
pelos argumentos contrários:
a. Não existe
comprovação científica da existência biológica de "raça". Logo, é
cientificamente absurdo estabelecer
uma política baseada em
"critérios raciais". Essa afirmação tem duas versões diferentes: 1)
segundo a ciência genética, não
existe senão a raça humana; 2) devido à intensa miscigenação, ninguém é
"branco" ou "negro" puro
no Brasil, apenas mestiço; em decorrência
disso, não é possível estabelecer quem
é negro no Brasil.
b. Não há
racismo no Brasil. Essa afirmação também
pode ser apresentada em duas formas: l)o
Brasil é uma democracia racial; 2) a discriminação no Brasil não é de cor, mas de classe.
c. O vestibular não discrimina, pois se baseia no mérito ou no desempenho dos concorrentes sem discriminação de cor ou de raça.
d. As cotas
para negros são uma forma de discriminação
racial; portanto, são ilegais e injustas.
e. As cotas vão
gerar mais discriminação em relação
aos alunos cotistas.
f. Em vez da
adoção de cotas, é preciso melhorar a
qualidade do ensino público, isto é, garantir, sem discriminação, acesso às políticas públicas de forma universal.
g. Em vez
de cotas para negros, devemos adotar cotas
para pobres ou alunos de escolas públicas,
pois os negros são a maioria dos pobres e dos alunos de escolas públicas.
h. A entrada de
alunos cotistas vai diminuir a qualidade da universidade pública.
i. Não é justo
ingressar na universidade com média inferior a alguém que não passou no vestibular por não ser
negro.
j. As cotas criariam
ou beneficiariam uma elite negra e não os negros mais pobres.
k. As cotas
reforçariam a crença na incapacidade intelectual do negro.
Vejamos agora alguns argumentos favoráveis à adoção das
cotas:
a. A adoção das ações afirmativas não depende da existência biológica das categorias raciais, pois
visa combater os efeitos do
preconceito racial: a discriminação e a desigualdade raciais. As ações afirmativas não servem para confirmar ou identificar definitivamente quem é negro, mas as vítimas de racismo.
b. Não apenas os estereótipos e os preconceitos raciais ou os episódios de discriminação direta a pessoas negras, mas também a situação estável e
duradoura de desigualdade racial em que homens e mulheres negros vivem mostram que há racismo no Brasil e que ele
reproduz formas de hierarquia racial
que reforçam outras formas de
estratificação social.
c. O vestibular
é uma forma de discriminação indireta
das pessoas negras, pois, ao não levar em consideração as desigualdades de oportunidades para negros e brancos,
promove uma concorrência desigual entre grupos socialmente desiguais, sob a aparência de uma disputa meritocrática.
As cotas para negros visam, então, à correção
dessa desigualdade.
d. Toda cota, como toda política orientada para um grupo social determinado, discrimina o grupo a ser atingido pela política. Porém, as cotas para negros, no contexto das relações raciais brasileiras, constituem uma discriminação positiva; têm por objetivo incluir, não excluir; promover a igualdade de condições, e não ampliar as desigualdades.
e. Os negros já são discriminados
independentemente de serem beneficiados pelas cotas e recorrem a elas exatamente por isso. Os negros não deixarão de ser discriminados se não entrarem na universidade pelo sistema de
cotas. A escolha é entre ser discriminado com
ou sem diploma.
f. As políticas de cotas são uma
modalidade de política afirmativa que, por
sua vez, é um tipo
de política pública. A adoção das cotas não implica, necessariamente, restrição a outras políticas públicas. Não há, por exemplo, nenhum dilema ou oposição entre o sistema de cotas e uma política universal como a melhoria do sistema público de educação.
de política pública. A adoção das cotas não implica, necessariamente, restrição a outras políticas públicas. Não há, por exemplo, nenhum dilema ou oposição entre o sistema de cotas e uma política universal como a melhoria do sistema público de educação.
g. A
diferença entre as médias das notas dos alunos cotistas e não-cotistas não é um efeito do sistema de cotas, mas seu próprio pressuposto. Adotam-se cotas porque um grupo social, devido a desvantagens sociais sistematicamente acumuladas, obtém notas inferiores a outros grupos sociais.
h. A adoção de cotas
não diminuirá a qualidade da
universidade pública; ao contrário, ela a elevará
com o aumento da diversidade e do intercâmbio de valores, histórias, experiências, saberes etc., componentes importantes do processo pedagógico e de produção de conhecimento.
O que você acha? Você
consegue pensar em outros argumentos contra ou a favor do sistema de cotas para estudantes
negros nas universidades publicas brasileiras? Quais? Você acha que o sistema de cotas reforça ou
diminui o racismo, o preconceito e a discriminação racial? Você consegue
pensar em medidas
mais justas ou mais eficientes para reverter a situação atual? Quais?
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1.“Agradecemos a Ronaldo Sales pela sistematização dos argumentos
presentes no debate sobre cotas raciais. Para um aprofundamento da
questão veja Sales (2004); Fry e Maggie (2004a; 2004b); Maio e Ventura (2005);
e o Quadro 12.1 no Capítulo 12, "Religião e Educação"
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