Referência:
MARTINS,
C. B. O que é Sociologia. 17ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.
O QUE É SOCIOLOGIA
INTRODUÇÃO
A sociologia constitui um projeto
intelectual tenso e contraditório. Para alguns ela representa uma poderosa arma
a serviço dos interesses dominantes, para outros ela é a expressão teórica dos
movimentos revolucionários.
A sua posição é notavelmente
contraditória. De um lado, foi proscrita de inúmeros centros de ensino. Foi
fustigada, em passado recente, nas universidades brasileiras, congelada pelos
governos militares argentino, chileno
e outros do gênero. Em 1968, os
coronéis gregos acusavam-na de ser disfarce do marxismo e teoria da revolução.
Enquanto isso, os estudantes de Paris escreviam nos muros da Sorbone que
"não teríamos mais problemas quando o
último sociólogo fosse
estrangulado com as tripas do último burocrata".
Como compreender as avaliações tão
diferentes dirigidas com relação a esta ciência? Para esclarecer esta questão,
torna-se necessário conhecer, ainda que de forma bastante geral e com algumas
omissões, um pouco de sua história. Isto me leva a situar a sociologia - este
conjunto de conceitos, de técnicas e de métodos de investigação produzidos para
explicar a vida social - no contexto histórico que possibilitou o seu
surgimento, formação e desenvolvimento.
Este livro parte do princípio de que a
sociologia é o resultado de uma tentativa de compreensão de situações sociais
radicalmente novas, criadas pela então nascente sociedade capitalista. A
trajetória desta ciência tem sido uma
constante tentativa de dialogar com a civilização capitalista, em suas diferentes
fases.
Na verdade, a sociologia, desde o seu
início, sempre foi algo mais do que uma mera tentativa de reflexão sobre a
sociedade moderna. Suas explicações sempre contiveram intenções práticas, um
forte desejo de interferir no rumo
desta civilização. Se o
pensamento científico sempre guarda uma correspondência com a vida social, na
sociologia esta influência é particularmente marcante. Os interesses
econômicos e políticos dos grupos e das
classes sociais, que na sociedade capitalista apresentam-se de forma
divergente, influenciam profundamente a elaboração do pensamento sociológico.
Procuro apresentar, em termos de
debate, a dimensão política da
sociologia, a natureza e as conseqüências de seu envolvimento nos embates entre
os grupos e as classes sociais e refletir em que medida os conceitos e as
teorias produzidos pelos sociólogos contribuem para manter ou alterar as
relações de poder existentes na sociedade.
CAPÍTULO PRIMEIRO:
O SURGIMENTO
Podemos entender a sociologia como uma
das manifestações do pensamento moderno. A evolução do pensamento científico,
que vinha se constituindo desde Copérnico, passa a cobrir, com a sociologia,
uma nova área do conhecimento ainda não incorporada ao saber científico, ou
seja, o mundo social. Surge posteriormente à constituição das ciências naturais
e de diversas ciências sociais.
A sua formação constitui um
acontecimento complexo para o qual concorrem uma constelação de circunstâncias,
históricas e intelectuais, e determinadas intenções práticas. O seu surgimento
ocorre num contexto histórico específico, que coincide com os derradeiros
momentos da desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização
capitalista.
A sua criação não é obra de um
único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da elaboração de um
conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas situações de
existência que estavam em curso.
O século XVIII constitui um marco
importante para a história do pensamento ocidental e para o surgimento da
sociologia. As transformações econômicas, políticas e culturais que se aceleram
a partir dessa época colocarão problemas inéditos para os homens que
experimentavam as mudanças que ocorriam no ocidente europeu. A dupla revolução que este século testemunha - a
industrial e a francesa - constituía os dois lados de um mesmo processo, qual
seja, a instalação definitiva da
sociedade capitalista. A palavra sociologia apareceria somente um século
depois, por volta de 1830, mas são os acontecimentos desencadeados pela dupla
revolução que a precipitam e a tornam possível.
Não constitui objetivo desta parte do
trabalho proceder a uma análise destas duas revoluções, mas apenas estabelecer
algumas relações que elas possuem com a formação da sociologia. A revolução
industrial significou algo mais do que a introdução da máquina a vapor e dos
sucessivos aperfeiçoamentos dos métodos produtivos. Ela representou o triunfo
da indústria capitalista, capitaneada pelo empresário capitalista que foi pouco
a pouco concentrando as máquinas, as terras e as ferramentas sob o seu
controle, 6 convertendo grandes massas humanas em simples trabalhadores
despossuídos.
Cada avanço com relação à consolidação
da sociedade capitalista representava a desintegração, o solapamento de
costumes e instituições até então existentes e a introdução de novas formas de
organizar a vida social. A utilização da máquina na produção não apenas
destruiu o artesão independente, que possuía um pequeno pedaço de terra,
cultivado nos seus momentos livres. Este foi também submetido á uma severa
disciplina, a novas formas de conduta e de relações de trabalho, completamente
diferentes das vividas anteriormente por ele.
Num período de oitenta anos, ou seja,
entre 1780 e 1860, a Inglaterra havia mudado de forma marcante a sua
fisionomia. País com pequenas cidades, com uma população rural dispersa, passou
a comportar enormes cidades, nas quais se concentravam suas nascentes
indústrias, que espalharam produtos para o mundo inteiro. Tais modificações não
poderiam deixar de produzir novas realidades para os homens dessa época. A
formação de uma sociedade que se industrializava e urbanizava em ritmo
crescente implicava a reordenação da sociedade rural, a destruição da servidão,
o desmantelamento da família patricial etc. A transformação da atividade
artesanal em manufatureira e, por último, em atividade fabril, desencadeou uma
maciça emigração do campo para a cidade, assim como engajou mulheres e crianças
em jornadas de trabalho de pelo menos doze horas, sem férias e feriados,
ganhando um salário de subsistência. Em alguns setores da indústria inglesa,
mais da metade dos trabalhadores era constituída por mulheres e crianças, que
ganhavam salários inferiores dos homens.
A
desaparição dos pequenos proprietários rurais, dos artesãos independentes, a
imposição de prolongadas horas de trabalho etc, tiveram um efeito traumático
sobre milhões de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas habituais
de vida. Estas transformações, que possuíam um sabor de cataclisma, faziam-se
mais visíveis nas cidades industriais, local para onde convergiam todas estas
modificações e explodiam suas conseqüências. Estas
cidades passavam por um
vertiginoso crescimento demográfico, sem possuir, no entanto, uma estrutura de
moradias, de serviços sanitários, de saúde, capaz de acolher a população que se
deslocava do campo. Manchester, que constitui um 7 ponto de referência
indicativo desses tempos, por volta do início do século XIX era habitada por
setenta mil habitantes; cinqüenta anos
depois, possuía trezentas mil pessoas. As conseqüências da rápida
industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram
tão visíveis quanto trágicas: aumento assustador da prostituição, do suicídio,
do alcoolismo, do infanticídio, da criminalidade, da violência, de surtos de
epidemia de tifo e cólera que dizimaram parte da população etc.
É evidente que a situação de miséria
também atingia o campo, principalmente os trabalhadores assalariados, mas o seu
epicentro ficava, sem dúvida, nas cidades industriais.
Um dos fatos de maior importância
relacionados com a revolução industrial é sem dúvida o aparecimento do
proletariado e o papel histórico que ele desempenharia na sociedade
capitalista. Os efeitos catastróficos
que esta revolução acarretava para a classe trabalhadora levaram-na a negar
suas condições de vida. As manifestações de revolta dos trabalhadores
atravessaram diversas fases, como a destruição das máquinas, atos de sabotagem
e explosão de algumas oficinas, roubos e crimes, evoluindo para a criação de
associações livres, formação de sindicatos etc. A conseqüência desta crescente
organização foi a de que os "pobres" deixaram de se confrontar com os "ricos"; mas uma classe
específica, a classe operária, com consciência de seus interesses, começava a
organizar-se para enfrentar os proprietários dos instrumentos de trabalho.
Nesta trajetória, iam produzindo seus jornais, sua própria literatura,
procedendo a uma crítica da sociedade capitalista e inclinando-se para o
socialismo como alternativa de mudança.
Qual a importância desses
acontecimentos para a sociologia? O que merece ser salientado é que a
profundidade das transformações em Gurso colocava a sociedade num plano de
análise, ou seja, esta passava a se constituir em "problema", em
"objeto" que deveria ser investigado. Os pensadores ingleses que
testemunhavam estas transformações e com elas se preocupam não eram, no
entanto, homens de ciência ou sociólogos que viviam desta profissão. Eram antes
de tudo homens voltados para a ação, que desejavam introduzir determinadas
modificações na sociedade. Participavam ativamente dos debates ideológicos em
que se envolviam as correntes liberais, conservadoras e socialistas. Eles não
desejavam produzir um mero 8 conhecimento sobre as novas condições de vida
geradas pela revolução industrial, mas procuravam extrair dele orientações para
a ação, tanto para manter, como para reformar ou modificar radicalmente a
sociedade de seu tempo. Tal fato significa que os precursores da sociologia
foram recrutados entre militantes políticos, entre indivíduos que participavam
e se envolviam profundamente com os problemas de suas sociedades.
Pensadores como Owen (1771-1858),
William Thompson (1775-1833), Jeremy Bentham (1748-1832), só para citar alguns
daquele momento histórico, podiam discordar entre si ao julgarem as novas
condições de vida provocadas peta revolução industrial e as modificações que
deveriam ser realizadas na nascente sociedade industrial, mas todos eles
concordavam que ela produzira fenômenos inteiramente novos que mereciam ser
analisados. O que eles refletiram e escreveram foi de fundamental importância
para a formação e constituição de um saber sobre a sociedade.
A sociologia constitui em certa medida
uma resposta intelectual às novas situações colocadas pela revolução
industrial. Boa parte de seus temas de
análise e de reflexão foi retirada das novas situações, como, por exemplo, a
situação da classe trabalhadora,
o surgimento da cidade industrial, as transformações tecnológicas, a
organização do trabalho na fábrica etc. É a formação de uma estrutura social
muito específica - a sociedade capitalista - que
impulsiona uma reflexão sobre a
sociedade, sobre suas transformações, suas crises, seus antagonismos de classe.
Não é por mero acaso que a sociologia, enquanto instrumento de análise,
inexistia nas relativamente estáveis sociedades pré-capitalistas, uma vez que o
ritmo e o nível das mudanças que aí se verificavam não chegavam a colocar a
sociedade como "um problema" a ser investigado.
O surgimento da sociologia, como se
pode perceber, prende-se em parte aos abalos provocados pela revolução
industrial, pelas novas condições de existência por ela criadas. Mas uma outra
circunstância concorreria também para a sua formação. Trata-se das modificações
que vinham ocorrendo nas formas de
pensamento. As transformações econômicas, que se achavam em curso no ocidente
europeu desde o século XVI, não poderiam deixar de provocar modificações na
forma de conhecera natureza e a cultura.
A partir daquele momento, o pensamento
paulatinamente vai renunciando a 9 uma visão sobrenatural para explicar os
fatos e substituindo-a por uma indagação racional. A aplicação da observação e
da experimentação, ou seja, do método científico para a explicação da natureza,
conhecia uma fase de grandes progressos. Num espaço de cento e cinqüenta anos,
ou seja, de Copérnico a Newton, a ciência passou por um notável progresso,
mudando até mesmo a localização do planeta Terra no cosmo.
O emprego sistemático da observação e
da experimentação como fonte para a exploração dos fenômenos da natureza estava
possibilitando uma grande acumulação de fatos. O estabelecimento de
relações entre estes fatos ia possibilitando
aos homens dessa época um conhecimento da natureza que lhes abria possibilidade
de a controlar e dominar.
O pensamento filosófico do século XVII
contribuiu para popularizar os avanços do pensamento científico. Para Francis
Bacon (1561 - 1626), por exemplo, a teologia deixaria de ser a forma norteadora
do pensamento. A autoridade, que exatamente constituía um dos alicerces da
teologia, deveria, em sua opinião, ceder lugar a uma dúvida metódica, a fim de
possibilitar um conhecimento objetivo da realidade. Para ele, o novo método de
conhecimento, baseado na observação e na experimentação, ampliaria infinitamente
o poder do homem e deveria ser estendido e aplicado ao estudo da sociedade. Partindo destas idéias, chegou
a propor um programa para acumular os dados disponíveis e com eles realizar
experimentos a fim de descobrir e formular leis gerais sobre a sociedade.
O emprego sistemático da razão, do
livre exame da realidade - traço que caracterizava os pensadores do século XVI
I, os chamados racionalistas, representou um grande avanço para libertar o
conhecimento do controle teológico, da tradição, da "revelação" e,
conseqüentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos
fenômenos da natureza e da cultura.
Diga-se de passagem, que o progressivo
abandono da autoridade, do dogmatismo e de uma concepção providencialista, enquanto
atitudes intelectuais para analisar a realidade, não constituía um
acontecimento circunscrito apenas ao campo científico ou filosófico. A
literatura do século XVII, por exemplo, constituía uma outra área que ia se
afastando do pensamento oficial, na medida em que se rebelava contra a criação
literária legitimada pelo poder. A obra de vários literatos dessa época
investia contra as instituições 10oficiais, procurando desmascarar os
fundamentos do poder político, contribuindo assim para a renovação dos costumes
e hábitos mentais dos homens da época.
Se no século XVIII os dados
estatísticos voavam indicando uma produtividade antes desconhecida, o
pensamento social deste período também realizava seus vôos rumo a novas
descobertas. A pressuposição de que o processo histórico possui uma lógica
passível de ser apreendida constituiu um aconteci mento que abria novas pistas
para a investigação racional da sociedade. Este enfoque, por exemplo, estava na
obra de Vico (1668 - 1744), para o qual é o homem quem produz a história.
Apoiando-se nesse ponto de vista, afirmava que a sociedade podia ser
compreendida porque, ao contrário da natureza, ela constitui obra dos próprios
indivíduos. Essa postura diante da sociedade, que encontra em Vico um de seus
expoentes, influenciou os historiadores escoceses da época, como David Hume
(1711-1776) e Adam Ferguson (1723-1816), e seria posteriormente desenvolvida e
amadurecida por Hegel e Marx.
Data também dessa época a disposição de
tratar a sociedade a partir do estudo de seus grupos e não dos indivíduos
isolados. Essa orientação estava, por exemplo, nos trabalhos de Ferguson, que
acrescentava que para o estudo da sociedade era necessário evitar conjecturas e
especulações. A obra deste historiador escocês revela a influência de algumas
idéias de Bacon, como a de que ë a indução, e não a dedução, que nos revela a
natureza do mundo, e a importância da observação enquanto instrumento para a
obtenção do conhecimento.
No entanto, é entre os pensadores franceses
do século XVIII que encontramos um grupo de filósofos que procurava transformar
não apenas as velhas formas de conhecimento, baseadas na tradição e na
autoridade, mas a própria sociedade. Os iluministas, enquanto ideólogos da
burguesia, que nesta época posicionava-se de forma revolucionária, atacaram com
veemência os fundamentos da sociedade feudal, os privilégios de sua classe
dominante e as restrições que esta impunha aos interesses econômicos e
políticos da burguesia.
A intensidade do conflito entre as
classes dominantes da sociedade feudal e a burguesia revolucionária que leva os
filósofos, seus representantes intelectuais, a atacarem de forma impiedosa a
sociedade feudal e a sua 11 estrutura de conhecimento, e a negarem abertamente
a sociedade existente.
Para proceder a uma indagação crítica
da sociedade da época, os iluministas partiram dos seus antecessores do século
XVII, como Descartes, Bacon, Hobbes e outros, reelaborando, porém, algumas de
suas idéias e procedimentos. Ao invés de utilizar a dedução, como a maioria dos
pensadores do século XVII, os iluministas insistiam numa explicação da
realidade baseada no modelo das ciências da natureza. Nesse sentido, eram influenciados mais por Newton, com seu
modelo de conhecimento baseado na
observação, na experimentação e na acumulação de dados, fio que por Descartes,
com seu método de investigação baseado na dedução.
Influenciado por esse estado de
espírito, Condorcet (1742-1794), por exemplo, desejava aplicar os métodos
matemáticos ao estudo dos fenômenos sociais, estabelecendo uma área própria de
investigação a que denominava "matemática social". Admitia ele que,
utilizando os mesmos procedimentos das ciências naturais para o estudo da
sociedade, este poderia atingir a mesma
precisão de vocabulário e exatidão de resultados obtidas por aqueles.
Combinando o uso da razão e da
observação, os iluministas analisaram
quase todos os aspectos da sociedade. Os trabalhos de Montesquieu (1689-1755), por exemplo,
estabelecem uma série de observações sobre a população, o comércio, a religião,
a moral, a família etc. O objetivo dos iluministas, ao estudar as instituições
de sua época, era demonstrar que elas eram irracionais e injustas, que
atentavam contra a natureza dos indivíduos e, nesse sentido, impediam a
liberdade do homem. Concebiam o indivíduo como dotado de razão, possuindo uma
perfeição inata e destinado à liberdade e à igualdade social. Ora, se as
instituições existentes constituíam um obstáculo à liberdade do indivíduo e à
sua plena realização, elas, segundo eles, deveriam ser eliminadas. Dessa forma
reivindicavam a liberação do indivíduo
de todos os laços sociais tradicionais, tal como as corporações, a
autoridade feudal etc.
Procedendo desta forma, os iluministas
conferiam uma clara dimensão crítica e negadora ao conhecimento, pois este
assumia a tarefa não só de conhecer o mundo natural ou social tal como se
apresentavam, mas também de criticá-lo e rejeitá-lo. O conhecimento da
realidade e a disposição de transformá-la eram, portanto, uma só coisa. A
filosofia, de acordo com esta concepção, não constituía um mero conjunto de
noções abstratas distante e à margem da 12 realidade, mas, ao contrário, um
valioso instrumento prático que criticava a sociedade presente, vislumbrando
outras possibilidades de existência social além das existentes.
O visível progresso das formas de
pensar, fruto das novas maneiras de produzir e viver, contribuía para afastar
interpretações baseadas em superstições e crenças infundadas, assim como abria
um espaço para a constituição de um saber sobre os fenômenos histórico-sociais.
Esta crescente racionalização da vida social, que gerava um clima propício à
constituição de um estudo científico da sociedade, não era, porém, um privilégio de filósofos e homens que se
dedicavam ao conhecimento. O "homem comum" dessa época também
deixava, cada vez mais, de encarar as instituições sociais, as normas, como
fenômenos sagrados e imutáveis, submetidos a forças sobrenaturais, passando a
percebê-las como produtos da atividade humana, portanto passíveis de serem
conhecidas e transformadas.
A intensidade da crítica às
instituições feudais levada a cabo pelos iluministas constituía indisfarçável
indício da virulência da luta que a burguesia travava no plano político contra
as classes que sustentavam a dominação feudal. Na França, o conflito entre as
novas forças sociais ascendentes chocava-se com uma típica monarquia
absolutista, que assegurava consideráveis privilégios a aproximadamente
quinhentas mil pessoas, isso num país que possuía ao final do século XVIII uma
população de vinte e três milhões de indivíduos. Esta camada privilegiada não
apenas gozava de isenção de impostos e
possuía direitos para receber tributos feudais, mas impedia ao mesmo tempo a
constituição de livre-empresa, a exploração eficiente da terra e - demonstrava-se
incapaz de criar uma administração padronizada através de uma política
tributária racional e imparcial.
A burguesia, ao tomar o poder em 1789,
investiu decididamente contra os fundamentos da sociedade feudal, procurando
construir um Estado que assegurasse sua autonomia em face da Igreja e que
protegesse e incentivasse a empresa capitalista. Para a destruição do
"ancien régime", foram mobilizadas as massas, especialmente os
trabalhadores pobres das cidades. Alguns meses mais tarde, elas foram
"presenteadas", pela nova classe dominante, com a interdição dos seus
sindicatos.
A investida da burguesia rumo ao poder,
sucedeu-se uma liquidação 13 sistemática do velho regime. A revolução ainda
não completara um ano de existência, mas
fora suficientemente intempestiva para liquidar a velha estrutura feudal e o
Estado monárquico.
O objetivo da revolução de 1789 não era
apenas mudar a estrutura do Estado, mas abolir radicalmente a antiga forma de
sociedade, com suas instituições tradicionais, seus costumes e hábitos arraigados, e ao mesmo tempo promover
profundas inovações na economia, na política, na vida cultural etc. É dentro
desse contexto que se situam a abolição dos grêmios e das corporações e a
promulgação de uma legislação que limitava os poderes patriarcais na família,
coibindo os abusos da autoridade do pai, forçando-o a uma divisão igualitária
da propriedade. A revolução desferiu também seus golpes contra a Igreja,
confiscando suas propriedades, suprimindo os votos monásticos e transferindo
para o Estado as funções da educação,
tradicionalmente controladas pela Igreja. Investiu contra e destruiu os antigos privilégios de
classe, amparou e incentivou o empresário.
O impacto da revolução foi tão profundo
que, passados quase setenta anos do seu triunfo, Alexis de Tocqueville, um
importante pensador francês, referia-se a ela da seguinte maneira: "A
Revolução segue seu curso: à medida que vai aparecendo a cabeça do monstro,
descobre-se que, após ter destruído as instituições políticas ela suprime as
instituições civis e muda, em seguida,
as leis, os usos, os costumes e até a língua; após ter arruinado a estrutura do
governo, mexe nos fundamentos da sociedade e parece querer agredir até Deus;
quando esta mesma Revolução expande-se rapidamente por toda a parte com
procedimentos desconhecidos, novas táticas, máximas mortíferas, poder espantoso
que derruba as barreiras dos impérios, quebra coroas, esmaga povos e - coisa
estranha - chega ao mesmo tempo a ganhá-los para a sua causa; à medida que
todas estas coisas explodem, o ponto de
vista muda. O que à primeira vista parecia aos príncipes da Europa e aos
estadistas um acidente comum na vida dos povos, tornou-se um fato novo, tão
contrário a tudo que aconteceu antes no mundo e no entanto tão geral, tão
monstruoso, tão incompreensível que, ao apercebê-lo, o espírito fica como que
perdido".
O espanto de Tocqueville diante da nova
realidade inaugurada pela revolução francesa seria compartilhado também por
outros intelectuais do seu tempo. Durkheim, por exemplo, um dos fundadores da
sociologia, afirmou certa 14 vez que a partir do momento em que "a
tempestade revolucionária passou, constituiu-se como que por encanto a noção de
ciência social". O fato é que pensadores franceses da época, como
Saint-Simon, Comte. Le Play e alguns outros, concentrarão suas reflexões sobre
a natureza e as conseqüências da revolução. Em seus trabalhos, utilizarão
expressões como "anarquia", "perturbação",
"crise", "desordem", para julgar a nova realidade provocada
pela revolução. Nutriam em geral esses pensadores um certo rancor pela
revolução, principalmente por aquilo que eles designavam como "os seus
falsos dogmas", como o seu ideal de igualdade, de liberdade, e a
importância conferida ao indivíduo em face das instituições existentes.
A tarefa que esses pensadores se
propõem é a de racionalizar a nova
ordem, encontrando soluções para o estado de "desorganização" então
existente. Mas para restabelecer a "ordem e a paz", pois é a esta
missão que esses pensadores se entregam, para encontrar um estado de equilíbrio
na nova sociedade, seria necessário, segundo eles, conhecer as leis que regem
os fatos sociais, instituindo portanto uma ciência da sociedade.
A verdade é que a burguesia, uma vez
instalada no poder, se assusta com a própria revolução. Uma das facções
revolucionárias, por exemplo, os jacobinos, estava disposta a aprofundá-la,
radicalizando-a e levando-a até o fim, situando-a além do projeto e dos
interesses da burguesia. Para contornar a propagação de novos surtos
revolucionários, enquanto estratégia para modificação das sociedades, seria
necessário, de acordo com os interesses da burguesia, controlar e neutralizar
novos levantes revolucionários. Nesse sentido, era de fundamental importância
proceder a modificações substanciais em sua teoria da sociedade.
A interpretação crítica e negadora da
realidade, que constituiu um dos traços marcantes do pensamento iluminista e
alimentou o projeto revolucionário da burguesia, deveria de agora em diante ser
"superada" por uma outra que conduzisse não mais à revolução, mas à
"organização", ao "aperfeiçoamento" da sociedade.
Saint-Simon, de uma maneira muito explícita, afirmaria a este respeito que
"a filosofia do último século foi revolucionária; a do século XX deve ser
reorganizadora". A tarefa que os fundadores da sociologia assumem é, portanto, a de
estabilização da nova ordem. Comte também é muito claro quanto a essa questão.
Para ele, a nova teoria da sociedade, que ele denominava de 15 "positiva",
deveria ensinar os homens a aceitar a ordem existente, deixando de lado, a sua
negação.
A França, no início do século XIX, ia
se tornando visivelmente uma sociedade industrial, com uma introdução
progressiva da maquinaria, principalmente no setor têxtil. Mas o
desenvolvimento acarretado por essa industrialização causava aos operários
franceses miséria e desemprego. Essa situação logo encontraria resposta por
parte da classe trabalhadora. Em 1816-1817 e em 1825-1827, os operários
destroem as máquinas em manifestações de revolta. Com a industrialização da
sociedade francesa, conduzida pelo empresário capitalista, repetem-se
determinadas situações sociais vividas pela Inglaterra no início de, sua
revolução industrial. Eram visíveis, a essa época, a utilização intensiva do
trabalho barato de mulheres e crianças, uma desordenada migração do campo para
a cidade, gerando problemas de habitação, de higiene, aumento do alcoolismo e
da prostituição, alta taxa de mortalidade infantil etc.
A partir da terceira década do século
XIX, intensificam-se na sociedade
francesa as crises econômicas e as lutas de classes. A contestação da ordem
capitalista, levada a cabo pela classe trabalhadora, passa a ser reprimida com
violência, como em 1848, quando a burguesia utiliza os aparatos do Estado, por
ela dominado, para sufocar as pressões populares. Cada vez mais ficava claro
para a burguesia e seus representantes intelectuais que a filosofia iluminista,
que passava a ser designada por eles como "metafísica",
"atividade crítica inconseqüente", não seria capaz de interromper
aquilo que denominavam estado de "desorganização", de "anarquia
política" e criar uma ordem social estável.
Determinados pensadores da época
estavam imbuídos da crença de que para introduzir uma "higiene" na
sociedade, para "reorganizá-la", seria necessário fundar uma nova
ciência. Durkheim, ao discutir a formação da sociologia na França do século
XIX, refere-se a Saint-Simon da seguinte forma:
"O desmoronamento do antigo
sistema social, ao instigar a reflexão à busca de um remédio para os males de
que a sociedade padecia, incitava-o por isso mesmo a aplicar-se às coisas
coletivas. Partindo da idéia de que a perturbação que atingia as sociedades
européias resultava do seu estado de desorganização intelectual, ele
entregou-se à tarefa de pôr termo a
isto. Para refazer uma 16 consciência nas sociedades, são estas que
importa, antes de tudo, conhecer. Ora,
esta ciência das sociedades, a mais importante de todas, não existia; era
necessário, portanto, num interesse prático, fundá-la sem demora".
Como se
percebe pela afirmação de Durkheim, esta ciência surge com interesses práticos
e não "como que por encanto", como certa vez afirmara.
Enquanto resposta intelectual à
"crise social" de seu tempo, os primeiros sociólogos irão revalorizar
determinadas instituições que segundo eles desempenham papéis fundamentais na
integração e na coesão da vida social. A jovem ciência assumia como tarefa
intelectual repensar o problema da ordem social, enfatizando a importância de
instituições como a autoridade, a família, a hierarquia social, destacando a
sua importância teórica para o estudo da sociedade. Assim, por exemplo, Le Play
(1806-1882) afirmaria que é a família e não o indivíduo isolado que possuía
significação para uma compreensão da sociedade, pois era uma unidade
fundamental para a experiência do indivíduo e elemento importante para o
conhecimento da sociedade. Ao realizar um vasto estudo sobre as famílias de
trabalhadores, insistia que estas, sob a industrialização, haviam se tornado
descontínuas, inseguras e instáveis. Diante de tais fatos, propunha como
solução para a restauração de seu papel de "unidade social básica" a
reafirmação da autoridade do "chefe de família", evitando a igualdade
jurídica de homens e mulheres, delimitando o papel da mulher às funções
exclusivas de mãe, esposa e filha.
Procedendo dessa forma, ou seja,
tentando instaurar um estado de equilíbrio numa sociedade cindida pelos
conflitos de classe, esta sociologia inicial revestiu-se de um indisfarçável
conteúdo estabilizador, ligando-se aos movimentos de reforma conservadora da
sociedade.
Na concepção de um de seus fundadores,
Comte, a sociologia deveria orientar-se no sentido de conhecer e estabelecer
aquilo que ele denominava leis imutáveis da vida social, abstendo-se de qualquer
consideração crítica, eliminando também qualquer discussão sobre a realidade
existente, deixando de abordar, por exemplo, a questão da igualdade, da
justiça, da liberdade. Vejamos como ele a define e quais objetivos deveria ela
perseguir, na sua concepção:
"Entendo por física social a
ciência que tem por objeto próprio o estudo dos fenômenos sociais, segundo o
mesmo espírito com que são considerados os fenômenos astronômicos, físicos,
químicos e 17 fisiológicos, isto é, submetidos aleis invariáveis, cuja
descoberta é o objetivo de suas pesquisas. Os resultados de suas pesquisas
tornam-se o ponto de partida positivo dos trabalhos do homem de Estado, que só
tem, por assim dizer, como objetivo real descobrir e instituir as formas
práticas correspondentes a esses dados fundamentais, a fim de evitar ou pelo
menos mitigar, quanto possível, as crises mais ou menos graves que um movimento
espontâneo determina, quando não foi previsto. Numa palavra, a ciência conduz à
previdência, e a previdência permite regular a ação".
Não deixa de ser sugestivo o termo
"física social", utilizado por Comte para referir-se à nova ciência,
uma vez que ele expressa o desejo de construí-la a partir dos modelos das
ciências físico-naturais. A oficialização da sociologia foi portanto em larga
medida uma criação do positivismo, e uma vez assim constituída procurará
realizar a legitimação intelectual do novo regime.
Esta sociologia de inspiração
positivista procurará construir uma teoria social separada não apenas da
filosofia negativa, mas também da economia política como base para o
conhecimento da realidade social. Separando a filosofia e a economia política,
isolando-as do estudo da sociedade, esta sociologia procura criar um objeto
autônomo, "o social", postulando uma independência dos fenômenos
sociais em face dos econômicos.
Não será esta sociologia, criada e
moldada pelo espírito positivista, que
colocará em questão os fundamentos da sociedade capitalista, já então
plenamente configurada. Também não será nela que o proletariado encontrará a
sua expressão teórica e a orientação para suas lutas práticas. É no pensamento
socialista, em seus diferentes matizes, que o proletariado, esse rebento da
revolução industrial, buscará seu referencial teórico para levar adiante as
suas lutas na sociedade de classes. É neste contexto que a sociologia
vincula-se ao socialismo e a nova teoria crítica da sociedade passa a estar ao
lado dos interesses da classe trabalhadora.
Envolvendo-se desde o seu início nos
debates entre as classes sociais, nas disputas e nos antagonismos que ocorriam
no interior da sociedade, a sociologia sempre foi algo mais do que mera
tentativa de reflexão sobre a moderna sociedade. Suas explicações sempre
contiveram intenções práticas, um desejo de interferir no rumo desta
civilização, tanto para manter como para alterar os fundamentos da sociedade
que a impulsionaram e a tornaram possível.
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